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França interrompe sonho marroquino

Fernando Verchai

Parabéns, Seleção Marroquina! Representantes do continente africano em razão da localização geográfica e representantes, também, da cultura árabe, por fatores étnicos e de idioma, os marroquinos protagonizaram muitos dos melhores momentos da Copa do Mundo do Catar neste ano de 2022.

selecao de marrocos celebra classificacao para semifinais da copa do mundo catar 2022

Marrocos fez história ao se tornar a primeira seleção africana a atingir a fase de semifinais. Neste sábado, a equipe marroquina derrotou Portugal por 1 a 0, e agora terá a França pela frente (Foto: reprodução site Fifa.com – FIFA World Cup Catar 2022)

Dois destes momentos certamente foram nas oitavas de final, ao eliminar a Espanha nos pênaltis, e nas quartas de final, quando eliminou Portugal ao vencer por 1 a 0 no tempo normal. Coincidentemente ou não, estes dois países já foram colonizadores de Marrocos, tal como a França, que acabou eliminando os marroquinos na semifinal da Copa do Catar. Coincidentemente, também, ou não, Marrocos foi um dos países árabes a normalizar as relações com o governo de Israel, fato ocorrido em 2020, que causou revolta de boa parte da população, árabe, que apoia a Palestina (formada pelos árabes e tomada, em parte, por Israel, em meio a conflitos políticos e religiosos). Por isso, alguns jogadores marroquinos levantaram bandeiras da palestina após a classificação nas oitavas e nas quartas de final, ao invés de posarem com a bandeira de Marrocos. A identificação dos marroquinos com a cultura árabe e, consequentemente, com a Palestina, é tão forte, que muitos dos jogadores da atual seleção, na verdade, nasceram na Europa por conta da imigração, mas optaram por defender o Marrocos por uma questão de origem. Este é o caso do lateral-direito do PSG, Achraf Hakimi, nascido na Espanha, e do atacante do Chelsea, Hakim Ziyech, nascido na Holanda. Na época em que jogava na Holanda e era visto com potencial para defender a Seleção Holandesa, Ziyech explicou a opção de atuar pela Seleção Marroquina: “minhas raízes estão lá no Marrocos. Meu pai está enterrado lá e as pessoas que gostam muito de mim estão lá”.

Análise da semifinal, França x Marrocos:

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Depois de deixar dois gigantes europeus pelo caminho (Espanha nas oitavas e Portugal nas quartas), Marrocos enfrentou, nesta quarta-feira (14), a França, pela semifinal da Copa do Mundo do Catar. No entanto, em um roteiro diferente de qualquer outro vivido pela Seleção Marroquina nesta Copa, a França abriu o placar logo aos 5 minutos do primeiro tempo. Até então, o Marrocos não tinha saído atrás no placar em nenhuma partida, e isso aconteceu exatamente quando o técnico Hoalid Regragui, sem contar com um dos seus jogadores mais valiosos de acordo com o site especializado Transfermarkt (o zagueiro Nayef Aguerd, do West Ham), optou por utilizar, pela primeira vez, um esquema com 3 zagueiros, formando uma linha defensiva com 5 jogadores (em todas as outras partidas a linha de defesa era formada por 4 jogadores, com 5 no meio de campo). No entanto, o esquema mais conservador acabou chamando demais a França para o campo de ataque, e bastou um erro na marcação para a estratégia do técnico Regragui desmoronar.

Elemento surpresa no esquema de Didier Deschamps, Antoine Griezmann apareceu por entre as linhas de marcação de Marrocos para receber passe de Varane. Tentando antecipar a jogada, Jawad El Yamiq não previu que o passe de Varane não seria no pé de Griezmann, mas esticado na linha de fundo: o zagueiro marroquino acabou passando direto e o meia-atacante francês escapou livre de marcação na linha lateral da grande área, desestruturando toda a organização defensiva da Seleção Marroquina. Inteligente na jogada, Hakimi acompanhou a movimentação de Mbappé e bloqueou o chute do camisa 10 francês, que recebeu de Griezmann quase na marca do pênalti para finalizar. Só que a bola permaneceu viva na área marroquina: 7 jogadores se amontoaram na frente de Mbappé para bloquear uma segunda tentativa do craque francês, mas a bola, desviada na zaga, acabou sobrando no bico da pequena área, onde Theo Hernández apareceu sozinho para, com um voleio, vencer o goleiro Bono e estufar a rede, marcando um golaço.

Aguerrida, a Seleção Marroquina não se deu por vencida e buscou formas de superar a marcação alta da Seleção Francesa. E a principal forma encontrada pelos marroquinos para vencer esta marcação foi com jogadas pelas laterais. Foi assim que, ainda aos 10 minutos do primeiro tempo, Marrocos quase empatou a partida, mas parou no capitão francês, Hugo Lloris. Azzedine Ounahi, meia que encantou o técnico da Espanha, Luis Enrique (que falou para o Barcelona deveria contratá-lo), chamou a marcação da França para o lado esquerdo do campo e, em uma tabela com Noussair Mazraoui, abriu espaço no meio de campo, mas, com a defesa francesa bem postada, foi obrigado a tentar um chute de fora da área, que parou em uma grande defesa de Lloris.

A partir de então, a partida ficou aberta. O técnico Regragui “aproveitou” da falta de condição física do zagueiro e capitão Romain Saiss para mudar a estrutura tática de Marrocos, voltando para o 4-5-1. No entanto, assim como Marrocos criou chances de empatar, a França teve oportunidades para ampliar a vantagem que já tinha no placar. Pelo lado francês, Giroud desperdiçou as duas melhores chances do primeiro tempo, acertando a trave na primeira e mandando para fora na segunda. Pelo lado marroquino, o zagueiro Yamiq surpreendeu ao acertar uma linda bicicleta após cobrança de escanteio, mas, mais uma vez, Lloris apareceu para intervir com mais uma grande defesa.

No segundo tempo, Marrocos comprovou toda a sua força pressionando a Seleção Francesa em busca do empate. Que sufoco passaram os franceses! Mas, da mesma forma, que força possui esta Seleção da França! Mesmo com mais desfalques, além daqueles já conhecidos desde o início da Copa, para a partida contra Marrocos (o zagueiro Upamecano e o meia Rabiot), a França conseguiu segurar o ímpeto dos marroquinos e não deixou de buscar o segundo gol, que veio aos 34 minutos da etapa final, quando Mbappé fez jogada individual de gênio, invadiu a área e tentou a finalização pressionado por 4 marcadores marroquinos: a bola desviou e sobrou limpa para Randal Kolo Muani só tocar para o fundo da rede.

Agora, a França do técnico Didier Deschamps e do jovem craque Kylian Mbappé enfrenta a Argentina do técnico Lionel Scaloni e do craque consagrado Lionel Messi na final, enquanto o Marrocos vai enfrentar a Croácia na disputa pelo 3º lugar da Copa do Mundo do Catar 2022.

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